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Paixão por cultura

Então. No começo do carnaval, na véspera da partida para São Luís, peguei o livro do Sérgio Maggio, Conversas de Cafetinas, para ler. Sensacionante, como dizem os Ordinários. Em um dos capítulos do livro, está o texto integral de O Cabaré das Donzelas Inocentes, peça também de autoria do Maggio, que fez breve temporada há pouco tempo aqui em Brasília. O título da peça é o nome de um dos bordéis visitados pelo autor para compor o livro-reportagem, e os nomes das personagens (trata-se de um diálogo entre cafetinas) são os nomes das cafetinas que ele entrevistou. Melhor, aos nomes fictícios que ele deu às meninas, exceto Saiana e Cabeluda, que autorizaram o uso dos apelidos que as tornaram famosas. O fato é que o livro é apaixonante. E eu adoro o Maggio. Fiz oficina de crítica teatral com ele, no Cena Contemporânea 2008, e desde então minha admiração só cresce por ele.

Bom. Na sequência, peguei pra ler o "Uma paixão por cultura", do Carlos Eduardo Palleta Gomes. Isso foi sexta à noite. E terminei domingo. Fiz algo que nunca havia conseguido: peguei livro, cigarros (ah, o tabagismo...), uma coca-cola gelada e o carro, e fui pra beira do lago Paranoá, dedicar uma hora à leitura, no momento do pôr do sol. Sabe aquele tipo de livro que consegue mixar facilidade de compreensão com conteúdo que te faz refletir? Na prática, é o seguinte: um cara, machista, workaholic, alienado, toma um pé na bunda por esses motivos. Então se interessa por outra mulher, extremamente culta, e resolve bancar o cult pra conquistá-la.

Conquista-a, e de quebra acaba se interessando de verdade pela chamada alta cultura - leia-se aqui os cânones da literatura universal, música clássica, artes plásticas... Este universo se apresenta a ele, e ao leitor. Porque cada aula que o amigo dava a ele, por e-mail, é uma aula ao leitor. E o romance água com açúcar fica interessante, com seus rankings de maiores e melhores artistas e obras e até mesmo um papo sobre Apocalípticos e Integrados que me fez lembrar da faculdade. Fica a dica para todos os que querem imergir neste universo.

Minha modesta opinião é que o axé de raiz devia começar a ser valorizado como alta cultura, afinal, não é todo dia que alguém compõe belas canções como as que Cumpadi Washington fazia nos áureos tempos do É o Tchan. "Alá ralando o Tchan aê, olha o quibe", pra mim, é de uma genialidade métrico-melódica absurda.

PS: ignorem o último parágrafo. é apenas um teaser do blog que eu, Paulinho, Marcella, Rafania, Priscila e Fred estamos preparando.

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